Quarta-feira, Setembro 03, 2008


Faz-se noite cá dentro!

Os rios correm em silêncio,

Doem-me as pedras que irrigo,

Sinto-me nas densas bermas,

Entre o amputado e o seu membro fantasma.

Doem-me os limites do que fui e já não sou,

No capar do grande rio,

Nas águas que perco numa hemorragia galopante,



Sinto o coração fraco,

batendo em silêncio para não acordar o moribundo!

Estarei morta?!

Numa morte acordada, sem anestesia,

Doí-me o que não me pertence,


Tudo o que amo deixo livre,

E cuido também, mas agora não consigo,

Doem me os limites que dão a forma a este tosco ser,

que se movimenta e define como um corpo,

mas se sente ainda como um todo,

Sem se restringir às roupas de que cuido

e levo até ao fim do caminho,

Rio abaixo, sangrando no que não sou...

Cobrindo as pedras que amo e aqueço,

Alimentando os peixes que aqui encontram abrigo,


A hemorragia não estanca,

O amputado ainda venera o braço que não é seu...

O corpo esfria,

guardo dentro de mim apenas o que me resta
para aquecer o pobre coração que soluçando se despede,

desse membro fantasma que reconheço, mas não pertence nem obdece!

Descubro-me nos limites,

O que sou e não sou mas também amo, como se meu fosse,
mas de que agora deixo livre e me despeço,
desse corpo imaginário onde julgo que só eu vivi,

Despeço me com quem lhe morre um filho
E se vê morta como mãe,

Pois para ele, sou apenas as roupas,
Que não deixam adivinhar as vivas formas,
do tudo que vibra cá dentro,

Sou casca de uva sem carabunha,
Sugada e cuspida na berma,

Um espaço no tempo que se foi,
Um momento,
Que me preenche mas não conseguiu marcar o tempo.

Querem me resumir a isto,
que não sou e uso para me cobrir,

Onde ergo fronteiras,
ao morder me com força,
num garrote que me veste,
mas que ainda sente a dor aguda desse membro fantasma,
que ainda vive em sonhos e chora por mim.

Longe do que sou mas onde já não estou.

Segunda-feira, Agosto 25, 2008

Quem AMA ganha sempre.


O animal que venceu o medo do fogo deu um salto na humanidade,
O que venceu o medo do amor dá um salto na espiritualidade,

São tantos os que vivem acorrentados,
vivendo na toca com medo de se perder,

quem AMA ganha sempre,
...outra dimensão da vida,
...um sofrer mais profundo,
de quem se afunda no leito da felicidade,
...expandindo os seus limites,

Muitos vivem na escuridão dos seus medos,
julgando se felizes,
...e não entendem,
o quanto precisam perder para ganhar!

para libertar bem fundo esse medo,
trespassar essa fogueira sangrando e AMANDO!

Não interessa o outro ou os outros,
só os medos que vencemos,
a liberdade,
o amor que vivemos...

Quem ama vive,
O medroso sobrevive
Como um soldadinho do ego
Ganhando batalhas numa guerra à partida perdida!
Quem AMA ganha sempre.

Quinta-feira, Agosto 21, 2008


Olá alma branca!

Faço de ti retrete e aqui largo as fezes destas sinapses intestinais,

liberto estes intestinos e albergo os saprofitas que me purificam o sangue,
Só assim encontro a paz,
Só assim me livro do mundo,

Banho me na brancura da tua tela como quem se mergulha em cristalinas águas,
E esfrego bem forte o meu couro para te conspurcar...
Para em ti deixar a minha marca,
Para em mim adivinhar a tua brancura,

Troco o surro negro destas palavras pela pureza do que ainda não é,
E nem me atrevo a tocar no que verdadeiramente me corroi,
do que em mim morreu e não se quer despedir,

e tudo nasce do nada,
do que ainda não é e tudo aceita,
tal como tu,
que muitos pensam nada ser,
porque não és,
não passa do recreio dos meus dedos,
da expressão dos meus medos,

Ontem estavámos bem castanhas,
e eu pura,
Hoje abro a torneira e escorro esgoto abaixo a cor do teu ontem!

A caminho de casa hoje ego e ser degladiavam-se com palavras,
cantigas à desgarrada,
num fogo de artificio de palavras fortes e soltas

não eram meus, eram do espaço que percorria e deixava,
do que libertava o ser,
pensamentos que almas de passáro em gaiolas do pensamento não conseguem ter,
Ouvia o melodioso canto do passaro em liberdade,



Adivinhava a liberdade das palavras lá fora,
no movimento que escorria com a velocidade,
e reflectiam a gaiola,
de quem nunca partiu um prato,
de quem revisitou os recantos das suas entranhas,
tentando se encontrar no reflexo do que se passa lá fora,
sem nunca ter provado a liberdade,

do que nunca saíu da sala onde foi parido,
da pupa que não sente ainda o sol,
do pinto que ainda não partiu a casca,
do homem que nunca se sonhou além morte.


da galinha com asas que não consegue voar bem alto...
da borboleta que é apanhada pela tempestade,
da andorinha que não consegue partir na primavera,
do homem que nunca se deu ao amor,

do mundo que se nos abre e fecha ao ritmo do devir e vontade,
das danças que não consigo acompanhar,
das melodias que não sei cantar,
das notas que saltam fora do ouvido,
da voz que se cala para se concentrar no seu ritmo,
de tudo que somos e não somos,
e do que não sabemos ser,

do que sei e não sei e adivinho ao saber,

da não razão que explode na negação do seu saber,
da liberdade que julgo não ter,
da emoção que desconhece a sua voz,
do eco que se adivinha como o eu...





no mundo onde sou e estou, mesmo sem saber

As águas correm, eu descanso e tudo permanece

Terça-feira, Agosto 19, 2008


Olá, Olá Reino da vacuidade!

O eclipse tocou-me bem fundo,
A lua e o sol interpuseram-se para me apagar,

Louca! Pensa bem no que escreveste acima?!
Quem és tu para que a lua e sol se movam ao teu sabor...
Tens razão, sei bem disso...porque me lembras?
Nem a mim mesma movo para o quer que seja a meu favor,

Ando fraca, orientada pelo ego do mundo!
Tão longe dos meus oásis onde tudo floresce...
Onde os frutos são colhidos, e saboreados,
Sem se fazerem contas à produtiva colheita!

Plutão pede a minha vida,
e eu dou-lha sem pestanejar,
Chacinem-me, sangrem-me em público,
sequem-me o corpo e atirem o meu sangue ao esgoto,
Esquartejem me para alimentar os vossos cães,

Façam o que quiserem, pois eu não estou nem aí,
Irei ver a matança do corpo da plateia,
Relincharei para vos enquadrar melhor na cena,
Rirei convosco se preciso, acompanhar-vos-ei no desperdício das minhas entranhas,

Fazendo chacota do meu tempo,

do filme que produzi para a vida que vesti como rainha,

Atearei esse fogo, para tudo ver desaparecer,

E depois de rir talvez chore,
presa nestas tramas da aranha máter,
que lança teias e incendeia,
para me fazer sentir o ardor que não é meu,

O fogo que arde e não eu!
Eu sou lenha, madeira, lixo, carne,
que te alimenta, e liberta,
eu não estou nem aí

estou aqui,
bem aqui,
dentro dos oasis em flor que nunca viram a luz do sol!
dos mundos perfeitos que escolhi como refúgio,

Loucura, cobardia!
Digam o que quiserem, mas ali sou livre,
Livre do fogo e do gelo,
do quente e do frio,
da lua e do sol,

Livre e só,
numa solitude que leva ao encontro das pedras que jazem no meu caminho!
das águas que escorrem sem nada perguntar,
das ondas que em mim rebentam sem avisar!

Livre e cheia,
Sonhando livre e ordeira bem no cern do grande matadouro!
Engordando, para dar boas carnes,
calando para não gerar entropia,

mas sem medo,
pois nada deste vosso mundo se me mostra verdadeiro,
tenho asco das mentiras dos que dizem ser tudo,
dos que me tentam escravizar na necessidade pelo que não preciso,

nasci assim,
branca por fora de sangue bem negro correndo bem fundo
ordeira como uma ovelha, livre que nem uma cabra,
dormindo para poder sonhar!


E quem me ler pensa:
- esta pobre criatura esta dotada ao suícidio,
o suicidio da alma, a imortalidade do corpo,
adoro confundir vos,
sim a vós, seres de sistema operativo trinário,
sim,não ou talvez

deito me na fogueira para activar o vosso terceiro dialecto,
o do vómito,

E nada disto sou, pois eu rio, regurgito e cuspo,
não preciso assimilar nada,
ardo apenas,
que nem satánas, no seio da vida,

Da vida que agora não tenho,
porque levou de mim o amor!!

Sexta-feira, Agosto 15, 2008


Olá menina!
Como andamos?

Bem e mal...há pouco um intenso fluxo de alegria enchia de brilho as águas deste rio! Fluias sorrindo numa liberdade atroz que galgava as margens do rio e regava as arvorés! Nesse teu barulhento borbulhar entoavas as tuas mais doces melodias...
Até que a sombra desse imponente sobreiro te fez regressar as profundezas do teu leito
Agoras limpas o escorregadio musgo das pedras que sedimentava bem lá no fundo!

As pedras desse leito estão já limpas, as arestas limadas,
mesmo que o sobreiro não o consiga ver assim.

O seu reflexo ainda é atormentado pela corernte,
Nas tuas águas ainda não se deixa ver o fundo.
As suas folhas o poluem, e ele menospreza o poder da tua corrente...

Varri essas folhas cantando, larguei essas poeiras nas margens, sedimentei e empedrei o meu leito.

Aprendi a aceitar-te como um contraponto,
que me limita e dá forma a este leito,
mas que me aquece bem fundo na tua sombra,
na procura de raizes...

É no teu reflexo que me adivinho,
É na base das tuas raizes que limpo as pedras que nos abraçam!

Para que um dia tu, meu menino,
possas ver o reflexo na limpidez das águas.


Eu te sirva de espelho e tu de imagem.

E assim nasce mais um pedaço do mundo...

Segunda-feira, Julho 28, 2008


As muletas tiraram te a liberdade de movimento e levaram te até à liberdade dos outros,
Teve que ser assim, para te obrigar a entrar nestes ritmos circadianos e humanos que te acolhem,
O teu percurso tem sido engraçado,
Passaste toda a vida rumo ao desapego e agora sentes-te confortável em cada recanto da vida,
Precisas dela para te sentires
Pelo menos hoje e agora
Mais logo o peso dos outros talvez me volte a incomodar e queira descansar nessas estalagens que gerei com o meu deambular,
Sou eu, meia louca, meia egoísta, meia animal, meia humana...cega ainda!
Sou eu, um pouco de tudo,
Sou eu no mundo!
Eu que tanto não queria ser,
Hoje sei que sou diversa e igual a tantos outros,
Tenho a vida a pulsar dentro mim, querendo saltar deste colete de forças que me impõe a vida,
Mas que aprendi a respeitar
Como os meus limites,
As bermas da Estrada,
O leito do rio
Onde também sou

Quero construir em meu torno um mausoléu de braços e abraços
Que não me retêm mas que dão forma e protegem,
Que me sustentam neste mundo em que as sombras reclamam os seus senhores,
E os teus abraços meu AMOR?
Esses teus abraços cobertos de ouro, onde ficam?
Deixarei entre outros braços, os espaços dos nossos abraços,
E assim nascerão as janelas, os seus tesouros,
Os anseios da alma que se espreita até ao mar!!

Olá menina dos meus olhos!
Por dentro desses teus olhos vejo te perder.
Por entre esses espaços vazios que não preenches, mas onde vives,

És engraçada, mesmo, agora chove e tens que sair.
Nesta estação cheia de memórias vês as gaivotas lá longe despedindo se do sol.
Por entre o céu cinzento, que hoje serve de fundo a este fim de dia e à tua alma!

Resguarda-te. Resguarda-me, não te queres constipar e eu não me quero desconcentrar

Agora aqui não estás bem, mas lá terá que ser.
Os enfeites sentados, lá terão que ceder lugar à manca!
Sentas te como quem sai do vazio para ocupar o lugar dos colorido açucares,

Esse teu pé partido abriu te para o mundo dos outros,
Obriga-te a misturar,
e não gostas deste cheiro,
do que dos outros entra em ti,
Não suportas,
Aumentas o som do teu iPod até te rebentar os tímpanos,
Fitas o teu olhar neste ecrã e esqueces os outros que também preenchem este banco,
Só tu estás aqui, só tu, por entre os olhares curiosos dos que partilham este espaço
Há quem queira espreitar para esta nossa janela mas não consegue!


É tempo de sair do banco e deixar os coloridos açucares em flor

O comboio abriu portas, há que entrar
A presença alheia é demasiado forte, a sua energia inunda me,
Debato me no despojar desta cola que me tapa os poros e quase me deixa sem ar!
Estou cansada, e apetece-me estar só!

São apenas gente, menina.
Gente que carrega as suas historias, as suas cruzes, a sua ignorância, as suas verdades.
Não és melhor que elas, apenas as sentes mais…

Eu sei, mas em dias como os de hoje, em que deleito na vida, só as casas e as gaivotas conseguem ganhar cor neste ecrã.

Já estou a caminho do meu reino, neste soluçante comboio
Que se proíbe de espirrar!
Soluçando lá vai ele até me levar à cama dourada que há muito espera pelo nossos sonhos!

Entre soluços admiro a beleza das pontes que na noite acolhem o adivinhado rio e se enchem de cor!
Hoje estou numa de contemplar.
As coisas, as que me ficam na alma sem me inundarem com o seu doloroso ressoar.

Nesta linha recolho também o odor do meu largado menino, que ainda me dói,
Trago comigo a anestesia que despede a dor,
e adivinho a sua presença como um corpo estranho que dói ao se retirar,
Hoje passou por aqui?
Com quem? Pensou em mim?

E pensas que não.
A anestesia funciona.
E assim sararás.
A ferida fecha e nós seremos livres.

Sou um fantasma que viaja entre Aqui e Ali, tal com os anjos do Wenders em Berlim,
Era bom, mas gostava de tal como eles viajar no tempo.
Partilhar sem ser visto.
Não sentir.

Não sei se seria boa ideia.
Agora dói me a perna sentada,
Está cansada de te suportar,
Sim, a ti, janela branca da alma, meu ecrã!

De soluço em soluço,
Lá vou eu,

Vou te fechar alma em branco,
E deixar que dentro dos meus olhos entrem os dos outros,
Vou preencher este espaço e voltar à mortalidade
Cobrir me de tédio e quem sabe dormir.
Lá fora no escuro não se faz lembrar nada,
A música nos ouvidos não dispenso!

Aquece me a alma e desperta me o espírito.
Até ao soluço final.

O reino dos sonhos nos espera,
Encontramos nos lá menina.
Até breve!

Quinta-feira, Maio 08, 2008





A vida e engracada! Mesmo...

Movimento me em espiral,
Num ciclo eterno onde desperto, adormeco,
E progrido

E bom sentir o espirito despertar por entre a roupa da alma,
Olhar para tras e sentir o porque das suas vestes!

A escolha da sua cor e textura,
Sentir o frio que me trespassa sem gelar,

O torpor da espera,
A falsa esperanca do que nao e,
A alegria e a clareza do que e!

O castelo dos sonhos esta limpo,
Abrem se as pesadas janelas,

A vida precisa de correr com o tempo,
O que nao e, nao vale a pena,
O pulmao busca o seu oxigenio no presente
E enche os grandes vasos do coracao,

Mudei,
Ou talvez nao tenha mudado assim tanto,
Apenas me espreguicei,
Espanei o po do tempo,
Aquele que cobria o vazio das falsas esperas
E o fazia parar na esperanca de o ver sedimentar,
na ausencia do vento,
na paragem do tempo,

Acordei desse torpor,
Aceitei o trespasse do vazio,
a alma esburacada,
Aceitei,
Ser esponja que flutua no mar,


Ou a ponte que abriga o grande rio,
Que o encerra e me liberta,
O circulo que ao fechar se abre
para dar forca ao que o extravassa.


Por entre todos os meus poros escorreram lagrimas,
Lagrimas que retive,
E movimentei no sangue,
Para um dia ganharem forca e ver albarroar o grande dique,
Rasgar o veu que serve de hospede as nuvens carregadas de incertezas,
E assim me libertar,

Hoje existo, eu no mundo,
Como uma brisa que vibra no ar e traz ate mim os outros,
Nas pontes que se entrecuzam para abrigar o mar,

Eu sou o mundo,
Que escorre como sangue,
Que me veicula quando respiro,

E me faz encontrar,
nas subtis trocas gasosas,
Que por vezes imprimem o eterno no tempo,

Pois nao e apenas aqui, neste tempo e espaco, que me alimento,
Ha algo que assimilo ou ponho a descoberto de quando em quando,
Algo que permanece
como ouro,
Algo que me e ainda estranho,
E guardo como pura essencia,

Que escorre no sangue tambem alem fronteiras,
Por detras do ceu azul que indica o caminho as montanhas!
Por entre os dedos dos outros que me suportam.
Obrigada