
Faz-se noite cá dentro!
Os rios correm em silêncio,
Doem-me as pedras que irrigo,
Sinto-me nas densas bermas,
Entre o amputado e o seu membro fantasma.
Doem-me os limites do que fui e já não sou,
No capar do grande rio,
Nas águas que perco numa hemorragia galopante,
Sinto o coração fraco,
batendo em silêncio para não acordar o moribundo!
Estarei morta?!
Numa morte acordada, sem anestesia,
Doí-me o que não me pertence,
Tudo o que amo deixo livre,
E cuido também, mas agora não consigo,
Doem me os limites que dão a forma a este tosco ser,
que se movimenta e define como um corpo,
mas se sente ainda como um todo,
Sem se restringir às roupas de que cuido
e levo até ao fim do caminho,
Rio abaixo, sangrando no que não sou...
Cobrindo as pedras que amo e aqueço,
Alimentando os peixes que aqui encontram abrigo,
A hemorragia não estanca,
O amputado ainda venera o braço que não é seu...
O corpo esfria,
guardo dentro de mim apenas o que me resta
para aquecer o pobre coração que soluçando se despede,
desse membro fantasma que reconheço, mas não pertence nem obdece!
Descubro-me nos limites,
O que sou e não sou mas também amo, como se meu fosse,
mas de que agora deixo livre e me despeço,
desse corpo imaginário onde julgo que só eu vivi,
Despeço me com quem lhe morre um filho
E se vê morta como mãe,
Pois para ele, sou apenas as roupas,
Que não deixam adivinhar as vivas formas,
do tudo que vibra cá dentro,
Sou casca de uva sem carabunha,
Sugada e cuspida na berma,
Um espaço no tempo que se foi,
Um momento,
Que me preenche mas não conseguiu marcar o tempo.
Querem me resumir a isto,
que não sou e uso para me cobrir,
Onde ergo fronteiras,
ao morder me com força,
num garrote que me veste,
mas que ainda sente a dor aguda desse membro fantasma,
que ainda vive em sonhos e chora por mim.
Longe do que sou mas onde já não estou.






